Numa época de crises, guerras,
separações e individualismos como a nossa, não seria melhor começar a pôr em
prática nas escolas idéias mais humanistas, que valorizem desde cedo a
importância das emoções?
Percebo
alguns pontos relevantes que talvez nos levam a uma hipótese de resposta para
essa questão.
-
A estrutura ainda existente nas escolas: tanto as estruturas físicas, quanto as
estruturas relacionais não estão preparadas para levar em consideração o lúdico
e o afetivo na sala de aula. Escolas estaduais e municipais e muitas
particulares ainda possuem um prédio escolar e salas de aulas voltadas para o
ensino chamado de tradicional.
-
A grade curricular e os conteúdos a serem ensinados, além da seriação. A
progressão continuada foi uma proposta interessante no papel, mas que se tornou
promoção automática. Na prática, temos uma escola onde os alunos são separados
por série (agora anos), dentro dessa estrutura o existem conteúdos a serem
atingidos (expectativas de aprendizagem) dentro de cada série e muitas vezes
não são respeitados nem os limites da criança, muito menos o nível de
aprendizagem que a criança se encontra. O planejamento das ações na escola se
dá raramente e quando ocorre muitas vezes é mal conduzido. Temos também a
partir do 6º ano um professor para cada disciplina, com 50 min de aula cada,
regendo a sua disciplina.
-
A valorização da carreira do magistério: atualmente é uma carreira que não é
valorizada nem financeiramente, nem moralmente. As pessoas têm se afastado
dessa profissão e mesmo as que ingressam, já o fazem com uma visão precária do
que seria a mesma, não se preocupando em investir na área. Muitos que desejam o
contrário acabam por desanimar frente as tantas dificuldades e acabam
reproduzindo aquilo que já existe (ou não existe, pensando que talvez nenhuma
proposta esteja sendo seguida).
Sintetizando,
acredito que haja uma manobra política envolvida no processo da educação. O
professor está muito desmotivado, mas acaba sendo vítima de um sistema. Quando
não acreditamos no que estamos fazendo, não fazemos com prazer e não
conseguimos atingir o outro. Caímos em uma armadilha, onde o conhecimento pelo
próprio professor acaba sendo desvalorizado. Acredito que, embora se fale tanto
em afetividade e na maneira lúdica de ensinar, muitos professores não conhecem
tais teorias a fundo, a ponto de tornar-se reflexivo para colocá-la em prática.
Quando vemos professores seguindo um modelo errôneo de ensino-aprendizagem,
creio que este não perceba bem o que está fazendo e com isso julgue o brincar,
o afetivo uma anarquia, uma falta de ordem, um caos.
A
formação docente está bem distante de ser significativa. Acredito que a
proposta das escolas devam ser revistas. Tornar significativa a aprendizagem é
também tornar significativo o papel da escola na sociedade. A escola é uma
instituição que tem o poder de modificar o social. Porém quando o sujeito não
acredita na sua prática, ou seja, sua prática não é significativa nem para si
mesmo, é impossível significar então para o outro, tornando as aulas mecânicas,
distantes da proposta citada por Ausubel.
Como
levar o afetivo para dentro da sala de aula quando não se está emocionalmente
equilibrado para com a sua profissão. Como tornar possível a construção do
conhecimento quando na verdade o próprio conhecimento adquirido não foi
construído, mas sim imposto.
O
nosso professor hoje, muitas vezes, não conhece os meios, apenas o fim. Esse
fim está desconexo, não faz sentido. Segundo Bruner, “o
conceito de aprendizagem em espiral pode enunciar-se da seguinte forma:
qualquer ciência pode ser ensinada, pelo menos nas suas formas mais simples, a
alunos de todas as idades, uma vez que os mesmos tópicos serão, posteriormente,
retomados e aprofundados mais tarde.” Nesse ponto o professor deveria
ressignificar seus saberes e se permitir a embarcar nessa espiral, voltando ao
como aprendeu e agregando-lhe novos conceitos, novos pontos de vista.
Podemos dizer que a
proposta da progressão continuada está relacionada com o conceito da aprendizagem em espiral,
infelizmente na prática vemos isso de maneira diferente. Pode-se dizer que a
progressão continuada está distante também da teoria dos organizadores prévios,
citada por Ausubel, pois não vemos educadores construindo tal ponte com seus
alunos. “Organizadores prévios
são materiais introdutórios apresentados antes do material a ser aprendido em
si. Sua principal função é de servir de ponte entre o que o aprendiz já sabe e
o que ele deve saber a fim de que o material possa ser aprendido de forma
significativa. Facilitam a aprendizagem na medida em que funcionam como
"pontes cognitivas".”
A
mudança de olhar já começou por parte de alguns educadores e deveria ser
revista também pelo nosso governo, que até o momento não focou sua preocupação
de maneira séria para a educação. Por enquanto nos resta "o papel de
formiguinha", que nunca desanima e que tenta convencer o outro de que
trabalhando duro poderemos enfrentar as nossas dificuldades. Fica uma pergunta:
os educadores querem valorizar as emoções e tornar a educação mais humana?
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